Opinião

Sem água não há futuro

A água é hoje, e sempre foi, uma das maiores preocupações estratégicas da ilha Graciosa.

Depois de ver os documentos disponíveis, chega-se à conclusão de que o problema não é propriamente a quantidade, mas quando se fala em água de qualidade, a coisa já muda de figura.

São conhecidos os problemas originados pela intrusão salina, o que obriga os graciosenses a garantirem o título de maiores consumidores de água importada, mas este tema, embora seja um assunto prioritário, terá o seu momento noutra altura. Hoje veremos as questões que estão a montante.

Enquanto noutras ilhas dos Açores foram sendo desenvolvidas lagoas artificiais de retenção, reservatórios e outros sistemas de armazenamento para reforçar o abastecimento de água à agricultura e à pecuária, a Graciosa continua sem dispor de uma única lagoa artificial destinada a esse fim.

Esta realidade obriga o Governo a concretizar o mais rapidamente possível soluções que permitam aumentar a capacidade de reserva e gestão da água disponível, porque, neste momento, praticamente toda a água consumida na Graciosa sai da rede pública municipal.

O Governo Regional, em 2022, assumiu o compromisso de construir uma lagoa artificial no lugar dos Barreiros, projeto que foi apresentado como uma resposta importante para reforçar a disponibilidade de água para a lavoura. Quatro anos depois, os agricultores continuam à espera de que essa promessa saia do papel.

A Graciosa possui mais de 7.000 bovinos, sendo que cada animal consome, em média, cerca de 40 litros de água por dia, valor que pode ultrapassar os 100 litros diários no caso das vacas leiteiras em produção.

Estamos, portanto, a falar de necessidades que ascendem a centenas de milhares de litros de água todos os dias, um volume que demonstra a importância de garantir reservas adequadas para enfrentar períodos de menor precipitação.

O Município da Graciosa tem garantido o fornecimento de água à lavoura, e bem, no entanto esta não pode continuar a ser uma responsabilidade assumida exclusivamente por aquela autarquia.

A gestão dos recursos hídricos agrícolas exige empenhamento do orçamento regional para investimentos estruturantes e capacidade de armazenamento que só o Governo Regional, através da IROA, pode assegurar.

A construção da lagoa artificial dos Barreiros, outros investimentos similares já anunciados e, ainda, aqueles que terão de ser concretizados, são necessidades estratégicas para uma ilha onde a água tem sido e vai continuar a ser um problema.

Perante este cenário, a IROA, em 2025 e conforme se poderá ver no respetivo relatório, do total de 4,4 milhões de euros investidos nos Açores, dedicou 577 mil euros ao abastecimento de água. Tocou à Graciosa, desse montante, apenas 883 euros (leu bem, apenas oitocentos e oitenta e três euros), o que, por si só, diz tudo sobre a importância que dão a um dos maiores problemas que nos afeta.

O Governo Regional e a IROA têm de perceber, uma vez por todas, a importância do problema e têm a obrigação de inverter este abandono antes que as consequências se agravem.